Depois de um dia cheio de trabalho, escreveu para todo o fim de semana e por boa política com seu chefe, ficou de enviar algumas notas que sairiam na segunda-feira por internet. O fim de semana era morno, nada de agitos pós carnavalescos na cidade. Sem Pierrots, confete e menos ainda champagne dos patrões, Marcelo aproveitou o fim de tarde de verão e foi a Ouro Branco visitar seus pais.
Da janela do ônibus, com ar condicionado que fazia esquecer o calor que fazia do lado de fora, Marcelo via um jovem em seu carro conversível colocar um cd e subir o volume. O rapaz começou a cantar e sacudir a cabeça de um lado ao outro. Marcelo não escutava nada e tentava adivinhar que música ele poderia estar escutando. Coisa de futriqueiro - pensou Marcelo e pôs a mão tapando os olhos se auto-recriminando. Quando tirou as mãos, viu que o tipo olhava para um linda garota que passava pela calçada. Um freiada alguns segundos depois e já tinha uma batida de carros ao lado. Marcelo ainda teve tempo de ver quem foi aquela mulher causadora da batida do conversível enquanto o ônibus arrancava em passo mais lento. E viu que era uma mulher com um olhar encantador. Marcelo viu que o rapaz tinha uma boa razão pra não estar olhando pra frente quando o sinal se pôs verde. Pé na estrada, e enquanto o ônibus subia a 040, um discman adormecia Marcelo em poucos minutos. A verdade é que perdeu um lindo pôr do sol na estrada.
Como se tivessem passado minutos. Ouro Branco. Para casa da mamãe. Comer comida feita com carinho e não fazer nada. Teoricamente. Marcelo se desentendia em suas filosofias de vida com seus pais e muitas vezes discutiam por nada. Passavam boa parte do dia discutindo política, sociedade, economia e umas quantas bobeiras em que não se entendiam. Sua mãe aglumas vezes se metia também discutia muito. Pensavam muito diferente. Mas naquele fim de semana em especial, Marcelo percebeu que seu pai não estava para muita prosa. na verdade tinha um olhar perdido e distante como nunca. Fumava seu ciagrro de palha na varanda sozinho. Tossia até engasgar. Tomava um pouco de chá e passava. Mas não olhava muito para ninguém. Marcelo percebia que estava sendo observado por ele quando não o olhava. Quando voltava o olhar a seu pai, ele disfarçava, fazia um piadinha, fingia que estava buscando algo ou pedia ajuda para alguma coisa. Não queria muita prosa. A mãe de Marcelo parecia que tinha envelhecido algunos anos depois do Natal. Estava preocupada com a mudança tão sem explicação de seu marido e não sabia como reagir a isso. Marcelo viu que a coisa não ia muito bem por ali. Mas não sabia muito bem o que fazer. Seus pais eram pouco abertos a conversas pessoais e não lhe davam muita possibilidade de diálogo. Marcelo passou um fim de semana inquietante. Um ruga de preocupação voltou com ele em sua testa naquele domingo de noite. No ônibus de volta não conseguiu descansar um só segundo por tão atípico que tinha aquele final de semana em família. Desconectado da capital e sem conseguir conectar-se a sua família, a cabeça de Marcelo vôou em um fim de semana de muito agito na porta da sua casa.
Pela manhã, entre um bom café da manhã cheio de frutas, a cabeça de Marcelo ainda ia pela preocupação com o estranho final de semana em família. Quando corria o ollho no jornal, se assutou quando viu em sua seção favorita o nome da rua onde morava. E umas poucas linhas abaixo a referência a cercania ao automóvel clube. Se despertou do estado de transe que aquele torpe fim de semana tinha lhe causado e voltou ao começo da notícia. Mulher assassinada em edifício de luxo no centro. E a matéria seguia com todo um relato de um porteiro do edifício que encontrou " uma mulher que tentava por quatro dias seguidos chamar em seu apartamento e ninguém respondia". Uma amiga tentava falar por telefone e passou os quatro dias por ali até que no quarto pressionou o porteiro e ao chegarem à porta sentiram um cheiro insuportávelmente estranho. "Depois de chamar por mais de meia hora, ele correu até a portaria e pegou uma maleta de ferramentas e tratou de abrir a porta." Quando entraram viram a dona do apartamento 1102 nua na cama cheia de sangue e alguns mosquitos que sobrevoavam a difunta. A polícia e a perícia estiveram ali no mesmo dia pela tarde. E apesar de estar nua na cama, constaram que ela não tinha tido nenhum tipo de relação sexual antes de morrer.
Marcelo levantou de uma só vez da mesa e foi atrás do celular perdido em algum lugar da casa. Meia hora depois encontrou o aparelho entre duas almofadas do sofá da sala. Buscava o telefone de um velho amigo da delegacia de polícia perto de sua casa. Um detetive da seção de homicídios que Marcelo fazia questão de conservar para estar sempre perto de sua verdadeira paixão jornalística. Por um desses acasos do destino, não era ele quem cuidava do caso e sim um colega. Mas que poderia apresentar a Marcelo sem problemas. O feeling jornalístico incomodava como nunca. Marcaram um café pela tarde com o delegado e o detetive seu amigo. Marcelo disse que morava em frente e o delegado se interessou em conhecê-lo.
Antes de sair para trabalhar, Marcelo reunia uma duzia de coisas na mão buscando sua bolsa. Enquanto buscava viu sobre a estante da entrada o bilhete sem assinatura que lhe esperavam no terraço do prédio. Como a cabeça esteve envolvida com tantas coisas nos últimos dias, acabou se esquecendo do misterioso encontro e ficou com aquilo na cabeça. Quem poderia ter enviado tão intrigante convite? Juntou todas as coisas na bolsa e colocou em meio a sua agenda aquilo que nem sabia a procedência e que bem podia ser uma brincadeira sem nenhuma graça de algum vizinho machista com ressaca de carnaval.
Foi trabalhar com a cabeça dando voltas e voltas sobre o estranho fim de semana. Uma família com um comportamento anormalmente preocupante e um assassinato perto da sua casa. Falar da pouca vida social de um fim de semana sem agito na cidade era resgatar velhas histórias de figurões e fazer fofoca. E isso ele fazia muito bem. O trabalho passou voando e quando se deu conta já estava atrasado para o encontro com seu amigo detetive e o delegado. Saiu apressado do jornal, deixando carteira, agenda e chave de casa pra trás. Chamou um taxi e pediu pressa para chegar ao Café que se encontrava na metade do caminho entre o jornal e sua casa. Um trânsito inexplicável fez com que ele chegasse 10 minutos atrasado. Quando chegou, não viu seu amigo e nem sabia a cara que tinha o tal delegado. Sentou, pediu um chá e pôs-se a esperar.