Já fazia algumas horas que Marcelo havia chegado a sua antiga casa em Ouro Branco. Sua irmã ainda não tinha chegado. Estava no Rio de Janeiro e vinha de carro. Ele não conseguia entender qual era o motivo da morte de seu pai. Ele o tinha visto no final de semana, no dia anterior e sim que ele estava estranho, como nunca. Mas não parecia débil de sua saúde. Fumava mais que o de costume. Também tossia e pigarreava mais vezes, mas nada que o matasse tão da noite pro dia assim. A cabeça de Marcelo dava voltas tentando entender a causa. Lava as mãos e olha no espelho para perguntar a si mesmo um vez mais: De quê? Ao sair do banheiro se encontra com sua tia que o pergunta onde tem mais pão ou biscoito. Marcelo não tinha nem idéia de siquer se teria. E pôs-se a buscar pela casa nos possíveis lugares. E depois de uns vinte minutos encontrava o que queriam. Mas agora era o último do que tinha para servir aos vistantes que vinham prestar seu luto. Marcelo tinha passado o final da madrugada procurando copos. água, café, biscoitos e pão e nem mesmo teve tempo de entender como poderia descobrir o motivo da morte de seu pai. O doutor Fernandes. O médico de seu pai certamente saberia o motivo de sua morte. Marcelo tinha que sair para comprar alguns biscoitinhos e algum refresco para o dia. Uma de suas primas já estava se apresentando à cozinha para fazer uma torta e um bolo para um café da manhã pouco comum. Marcelo percorreu a casa e não encontrava o doutor Fernandes. Certamente não estava ali, afirmou a doutora Débora. Débora era doutora há uns quinze anos ou menos, Marcelo não se lembrava. Era mais nova que ele, mas frequentava a noite de Ouro Branco quando jovem. Noite essa que ele frequentava em demasia. Marcelo acreditou sem hesitar. Até mesmo porque Débora comentou que o doutor Fernandes havia pego o turno depois do plantão dela naquela noite. Marcelo perguntou se ela tinha carro e se poderia levá-lo para comprar algo de comer e beber. Ela disse que seria uma prazer e saíram. Enquanto saíam, Marcelo já pensava na volta que teriam que fazer para passar pelo hospital e conversar com o doutor Fernandes. Ao sair pela porta encontra com sua irmã que lhe pergunta o que tinha acontecido. Marcelo respondeu que não sabia, mas estava indo tentar descobrir naquele momento e que iria comprar algo de comer também. Nesse momento Débora interviu e disse que iria sozinha comprar algo de comer e uns refrescos. Marcelo meio confuso entre o não saber a causa da morte de seu pai e a chegada de sua irmã abraçou seu cunhado e chorou ao ver sua irmã chorando recebendo um abraço e os cumprimentos de Débora: "Meus sentimentos, Gabriela." Direto ao caixão de seu pai Gabriela o olhou por alguns segundos. Virou de costas e tentou sorrir. Seu marido lhe deu um abraço enquanto olhava ao caixão de seu sogro. Chorava e soluçava como um bebê nos braços de Gabriela. E ainda que fosse uns 30 centímetros maior que ela, parecia estar sendo carregado. Gabriela tentava conter as lágrimas e via a Marcelo que a olhava com um choro pouco contído nos olhos. Depois de algum momento com sua mãe, Gabriela e seu marido estavam de volta ao velório. Ele chorava muito e se emocionava quando ouvia ou contava uma caso do seu Gerson. Gabriela percebeu que Marcelo estava inquieto e estranho. Não sabia que ele havia estado ali no fim de semana até que o chamou no quarto e foram conversar. Ele lhe contou do que tinha visto no fim de semana, mas que tão pouco notara algum sinal de uma saúde tão fatal em seu pai. Contou que queria falar com o doutor Fernandes e também do hospital e os biscoitinhos. Gabriela também estava intrigada com a história e disse: "Vamos no meu carro? ... Agora! Sem pensar Marcelo se levantou e foi atrás de sua bolsa. Gabriela atrás da chave do carro. Em poucos minutos estavam de saída. Ao passar pela cozinha, Débora acabava de chegar com uma dúzia de biscoitos, pão de queijo e alguns pães. Disse sorridente: "Passei na padaria, tava saindo um pãozinho quentinho, aí eu trouxe." Marcelo pegou alguns pães de queijo e um dos biscoitos e saiu. Gabriela pegou uma garrafa de água e foi atrás.
Entraram no carro e sairam em direção ao hospital enquanto Marcelo devorava os pães de queijo em sua mão a um velocidade pouco comum. Gabriela achou graça daquilo e disse: "Calma, mastiga antes de engolir." E deu uma risada. Marcelo se deu conta que estava gulosmente matando sua ansiedade. Lhe pediu desculpas e ofereceu um pão de queijo. Ela disse que não, mas aceitava um biscoito. Ele sorriu e abriu o pacote de biscoitos para ela. Enquanto tomava um gole de água, Garbriela pensou e perguntou a Marcelo se o doutor Fernandes estava de turno agora pelo começo da manhã, não haveria de ter sido ele que atestou o óbito de seu pai. Tudo aquilo fazia sentido para Marcelo, mas ele não sabia para onde ir para tentar obter teal informação que não fosse o hospital. Apesar da teimosia inútil de sua irmã em resmungar por desabafo, chegaram ao hospital alguns biscoitos depois. Quando chegaram não conseguiram falar de imediato com o doutor Ferndandes. Ele estava atendendo uma criança com suspeita de cachumba. No balcão do hospital Marcelo se apresentou a enfermeira como filho do seu Gerson e queria saber se ele tinha passado pelo hospital. Para sua pouca surpresa ela disse que sim. Sua irmã de longe perguntou:"Quê?" e calou se aproximando. Ele perguntou onde poderia ter acesso ao atestado de óbito. A enfermeira disse que melhor que eles conversassem com a doutora. Que ela podia explicar melhor o motivo da morte. "Mas que doutora, se nós viemos aqui atrás do doutor Fernandes!", disse Gabriela. Marcelo olha para a enfermeira e pergunta a que horas seu pai tinha falecido e ela diz que havia sido no dia anterior pela manhã. Marcelo fala com Gabriela que o turno deveria ser o do doutor Fernandes mesmo e pergunta a enfermeira: "Que doutora é essa então?"E a enfermeira respondeu um pouco surpreendida: " A doutora Débora Magalhães, ela que era a médica do seu pai há uns dois anos já." Marcelo e Gabriela se olharam e sem demorar muito agradeceram a enfermeira e correram em diração ao estacionamento do hospital. Já no carro o pessimismo da ida muda de assento e Marcelo devolve a pergunta a Gabriela: Mas se a Débora tava de plantão de noite, deve ter sido o doutor Fernandes mesmo que o atendeu." Gabriela retrucou dizendo que melhor saber da médica dele a causa da morte e também o motivo dessa causa. Em um trajeto de mais biscoitos e cigarros, chegaram rápido ao velório. Quando chegaram Débora estava de saída. Pedia desculpas pelo cansaço e que voltaria no final da manhã. Marcelo e Gabriela a interromperam e pediram para falar com ela em particular. Vendo a seriedade com que eles lhe falaram, Débora logo se deu conta que eles talvez não soubessem da grávidade da situação do pai. De portas fechadas em um quarto Débora pôs-se a explicar quando assumiu o pai deles como paciente. Ele levava três anos sem consultar com o doutor Fernandes e com muita insistência do tio de Débora, muito amigo do velho Gerson, ele passou a consultar com ela. Logo ela descobriu que ele tinha sérios problemas cardíacos, o pulmão não funcionva bem, assim como o fígado. Ela o havia advertido que deveria mudar os hábitos de vida, alimentares e de vícios. Fazer mais atividade física, comer coisas mais saudáveis e de fácil digestão e diminuir o cigarro e a cachaça. Mas Ficou seis meses sem aparecer no consultório. Até que uns dias antes do natal marcou uma visita ao consultório da doutora. Débora lhe pediu todos os exames de rotina para acompanhar como estava, mas o que mais lhe preocupava era da dor que Gerson dizia sentir no braço esquerdo. Com medo de um infarto, ela o advertiu dessa possibildade e de como reagir. Mas depois disso, Amanda, mãe de Marcelo e Gabriela, havia procurado a doutora Débora para saber o que estava passando com o marido dela. Débora disse que não podia dizer por questões éticas e agora se arrependia. " Faz cinco dias ela esteve no meu consultório." Marcelo tenta consolar-la e diz que não mudaria nada em cinco dias. Mas enfim que o pai tinha morrido de uma parada cardíaca. Sua saúde vinha mal há mais de cinco anos e ele fazia questão de não dividir essa informação com ninguém. Quando se afastou das sessões com a doutora Débora piorou muito seu estado, e quando voltou a vê-la tinha piorado muito. Nesse momento entra no quarto sua mãe e Ricardo, seu irmão que acabara de chegar de ônibus de São Paulo.