Era pouco mais de 9 da noite quando Marcelo chegou em casa. Ao abrir a porta empurrou um papel dobrado. Pisou nele amassando um pedaço que o prendia debaixo da porta. Pegou o papel no chão e fechou a porta. Acendeu a luz e abriu o papel. Duas linhas: Oi! e um e-mail: ei_mari@hotmail.com. Marcelo lê aquilo e se espanta. Vai até a cozinha com o bilhete na mão lendo e relendo. Pensa: Um 'Oi' e um eMe eSse eNe. Cheirou o papel e tinha cheiro de colônia de flores. Marcelo sentiu-se vigiado, observado. Sendo alvo de alguma paixão platônica, pensa Marcelo. Prepara uma boa macarronada e deixa o bilhete na bancada que separa a cozinha da sala. Abre uma garrafa de vinho e liga o som. Coloca um velho jazz que ainda tocava no vinil. Entre indas e vindas na cozinha. Entre taças de vinho e copos de água, Marcelo leva o computador da sala para a bancada da cozinha. Abre o msn e procura pelo e-mail no papel. Encontra e está on-line. Marcelo hesita, fecha o computador e se volta ao macarrão. Em pouco tempo sai um macarrão com tomate, azeitona, allho e vinho a la Marcelo. Ele contente, come sozinho e se diverte ao tentar dar um nome ao prato. Antes mesmo de poder pensar o primeiro nome a agulha agarrou em um arrando do velho disco, importunando a Marcelo que desliga o vinil e coloca uma música eletrônica lenta diretamente do computador. Senta de volta na mesa e termina de comer o macarrão. Vê o celular em cima da mesa com o sinal de uma nova mensagem. Pega o celular e lê a mensagem. Oi Marcelo, tudo bem? Obrigado pelo café da manhã. Gostei muito do seu texto. Quando puder, gostaria de conversar com você. Marinis. Marcelo se assusta e para de comer. Vai até a varanda e olha a janela mais uma vez. Relembra o quanto pode do que havia visto dali. Na sua cabeça imagens se formam em fragmentos da história. Lembra da mulher tirando a roupa enquanto ele estava sentado. Para Marcelo parecia um caso típico de puta que atendia em casa e o cliente a matou. Tirava conclusões Marcelo porque assim o achava. E seu romance ganhava mais trama. Com as histórias que Marinis lhe contara colocou um pouco mais de violência e suspense na sua história. Duas garrafas mais de vinho, Marcelo já tinha ido 40 páginas mais pra frente, e as quase 3 da manhã se dá por satisfeito e fecha o texto. Vê o texto que escrevera para Marinis, o fecha e lembra de como Marinis havia copiado rápido o texto. Na tela do computador resta a última pesquisa que ele havia feito no msn e aquele e-mail do bilhete que havia sido depositado em baixo da porta estava lá, mas não estava mais on line. Marcelo adiciona e entra no msn. Depois de 5 minutos, desliga o computador e vai dormir.
Na delegacia o trabalho de Marinis não para depois que o corpo de Naldo foi encontrado a pouco mais de 20 km da saída da cidade. Agora sim o caso tinha chegado a ele. E Marinis já tinha seus primeiros suspeitos. Mas antes tinha que recuperar o tempo perdido com o tão prolongado café da manhã. Na delegacia tinha relatórios por preencher sobre as novas informações do caso de Marisa Prieta. Após algumas horas no computador, um almoço frio e atrasado. Marinis pode finalmente concentra-se no caso de Naldo. Seus suspeitos eram fortíssimos candidatos a serem os responsáveis por esse homicídio. Mas que essa abordagem não seria fácil de ser feita, pois os policiais envolvidos não se entregariam facilmente se fossem eles mesmos quem tivessem matado a Naldo. No fim do dia Marinis se reúne com o outro dois delegados, um da corregedoria e outro da narcóticos, a de Gustavo e ainda um agente da corregedoria que irá trabalhar infiltrado na seção de narcóticos para tentar conseguir o depoimento de algum deles. O plano parecia bem e dependia de tempo. Para ajudar ele a ser querido pelos seus colegas, Marinis pediu ao delagado da narcóticos para ele ser duro e repreender ao novato. Todos riram e acharam boa a idéia de Marinis. Após a reunião, Marinis vai até a sua sala. Na tela do computador está o relatório que havia escrito pela manhã. Abre a gaveta e pega o pen drive. Coloca no computador e abre o texto de Marcelo lê as primeiras 20 páginas e gosta do jeito que Marcelo caminha entre o ficcional e o real, o romântico e o concreto. É um texto de linha tênues, pensa Marinis. Abre o texto que Marcelo escrevera para ele e o lê. Com mais atenção em cada detalhe, algumas coisas começam a incomodar a Marinis. Algumas peças começaram a se encaixar aqui e acolá, mas ainda não todas e em nenhum dos dois lugares. Adriano bate na porta entre aberta e ao escutar a voz de Marinis a empurra. Escuta a Marinis terminar uma frase falando sozinho olhando pela janela. Marinis se assusta com a presença de Adriano e um silêncio toma conta da sala do delegado. Adriando irrompe o silêncio depois de algum tempo dizendo: Ô doutor, o senhor tava falando sozinho? Marinis se tranquiliza ao ver que pela pergunta de Adriano ele acabara de chegar e não havia se dado conta do conteúdo que Marinis estava falando. Marinis suspira e atende a demanda de assinaturas em relatórios de Adriano. O coloca a par do caso de Naldo e pede para que ele observe de longe se encontra algo. Já pensando que sua presença pudesse desviar a atenção ainda mais em relação à chegada do novato. Adriando saiu da sala e Marinis pegou o celular. Escreveu uma mensagem para Marcelo. Enviou e ficou ali, parado, esperando por mais de 20 minutos. Colocou o celular no bolso e desceu para falar com o médico legista que estava de plantão. Com a confirmação da causa da morte e do possível horário que Naldo havia morrido, Marinis tinha algo mais concreto para levar esses assassinos para a cadeia e não apenas perderem o distintivo. Sufocado com um saco plástico na cabeça, uma fita crepe e os pés e mão algemados. Cruel, pensou Marinis. Olhou mais uma vez o celular e nenhuma mensagem de Marcelo. Subiu até a sua sala, preencheu mais um pouco de informação, agora no caso Naldo, no computador. E quando se deu conta que já era noite, entendeu o porque de tamanha fome. Desligou o computador e antes mesmo de sair da delegacia, do celular, já ligou para a pizzaria do seu bairro, de um amigo de trilhas de bicicleta e encomendou sua tradicional pizza. Ele sempre a entregava com meia hora. Marinis demorava, sem trânsito, 20 minuto até sua casa, e aquela hora o que ele tinha a seu favor era justamente o trânsito. E Marinis se foi a casa comer pizza e ver filme na televisão.