quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Capítulo XIII - Domingo

Uva, álcool, fumo, assassinos e assassinatos faziam parte da história que Marcelo escrevia e das madrugadas que vivia. Enquanto redigia o texto em que tentaria descrever para Marinis o que tinha visto, se deixa contaminar desse assassinato em sua história, e sua história se mistura no caso. Marcelo, mais criativo que descritivo, termina por florear seu texto à Marinis, enquanto sonhava em serem parceiros de uma história de polícia e repórter possível só no cinema. Em uma semana, o livro de Marcelo ganhara 74 páginas e o texto para Marinis se adequava em layouts e laudas. 2 e meia, para ser mais preciso. O título não estava lá, mas o espaço para ele sim.
Ding! Dong! Traz Marcelo para a realidade às 2:20 da manhã de uma madrugada de sábado para domingo. Ele fecha o laptop, e à meia luz, taciturno, aproxima-se da porta e cola o olho no buraco. Do outro lado, tudo escuro. Ele destranca a porta sem fazer ruídos. Acende a luz e abre a porta de um só golpe. Do outro lado, ninguém. Ele avança pelo corredor, acende a luz e não encontra ninguém. O elevador está parado no térreo. Ele sobe e desce correndo alguns andares e não encontra ninguém. Volta a casa e pega sua agenda, abre na página com um clip e pega o bilhete, lê e relê, como se você encontrar uma pista naquela caligrafia. Pensa que talvez seja alguém do prédio e já associando o evento do bilhete, em que também não encontrara ninguém ao convite do encontro em ser no terraço do próprio prédio. Como no caso de hoje, alguém veio do jeito que foi, sem que eu nem mesmo me desse conta! Comenta Marcelo sozinho. Ri de si mesmo, ao ver que estava falando sozinho. Passa pela cozinha, belisca uns amendoins, serve mais um pouco de vinho em uma taça limpa e volta ao seu quarto. Deitado na cama, abre o laptop e não consegue escrever nenhuma letra. As palavras mais se apagam que se completam. Marcelo coloca uma música e desiste do computador. Uma vizinha, pensa. Um vizinho, hum, que tudo! Mas com aquela letra, ai, certeza que é uma mona. Que coisa estranha! Bater na minha casa às 2 da manhã. Deixar um bilhete e sair correndo. Eu, hein?! Quanta loucura. Vou pensar um jeito de pegar quem quer que seja. Ao concluir esse pensamento, Marcelo se dá conta que enquanto pensava, seu olhar havia sido desviado para a luz do computador. Na tela está o texto que estava escrevendo para Marinis. Toma um gole de vinho, se concentra e relê o texto mais uma vez. Acredita que está muito bom. Corre e pega o cartão de Marinis. Senta na cama, abre o e-mail e quando está anexando o arquivo, pensa que melhor se encontrar com o Marinis, assim pode ter mais informação dele também, inclusive, material para seu livro. Cancela o envio do arquivo por e-mail no momento final. Olha no relógio e já é tarde. Desliga o computador. Toma mais um gole de vinho, vira pro lado e fica sonhando com a dupla de cinema de repórter e xerife. Adormece rapidamente.
O sol não fazia muito que havia nascido e Marcelo já se levantava, as cortinas do quarto que dormiam abertas para facilitar a circulação de ar, favoreciam a entrada dos raios de sol matutinos justo no quarto e na sala do apartamento de Marcelo. Ele nem se incomodava, levantava, fazia uma café e ia aproveitar o dia. E quando já era final da tarde desse dia que Marcelo estava curtindo, entre muita e alta música à experiências culinárias regadas a mais vinho, ele volta a se inspirar ao lembrar da inusitada campainha da madrugada. Leva a garrafa de vinho para a varanda, volta até o quarto para pegar o computador e vê o cartão de Marinis junto dele. Pega o telefone e disca para ele. Antes mesmo do último número bater, desliga. Pensa se seria imprudente ligar no domingo. Pensa melhor e diz: Porque não? Sorri ao falar consigo mesmo, disca novamente e escuta o sinal de chamar. Após alguns toques Marinis atende do outro lado da linha: Alô?! E Marcelo com empolgação pela tarde etílica: Marinis, como vai tudo bem? Marinis o interrompe e pergunta: Quem é?! Marcelo responde que é ele. A voz de Marinis perde uma tensão incial e com tranquilidade ele comenta a Marcelo que iria anotar o telefone de Marcelo, que já aproveita e fala para ele anotar o celular também. Marinis se espanta com tanta presteza de Marcelo em querer se envolver e vai logo as vias de fato, pergunta a Marcelo se ele tem novidades a respeito do texto. Marcelo que já ia se desculpando por ligar no domingo, vê a oportunidade de se envolver cada vez mais, dado o interesse de Marinis ser tão rápido. Ele conta que havia acabado o texto sim, mas que sua internet não estava funcionando. Falava cruzando os dedos, para que ele mesmo se perdoasse da mentira. Marinis se oferece de passar lá depois das 8 da noite para pegar e dar mais uma olhada da janela. Marcelo volta ao tema, e pede desculpas por ligar no domingo, que voltaria a ligar na segunda-feira. Marinis o interrompe e diz que não tem problema e que ele está de plantão. Marcelo engasga, e diz que não pode encontrar com Marinis hoje, porque tem um encontro. Marinis se desculpa e diz para que eles se encontrem na segunda-feira então. Marcelo, suspira com um certo alívio, e diz: Claro, por que não tomamos um café aqui em casa amanhã? Eu posso até chegar um pouco mais tarde no jornal. Marinis concorda, e marcam às 9 horas. Marcelo desliga o telefone empolgado, olha para o lado e vê que aquele realmente não era um dia para um delegado visitar sua casa. No computador, na varanda, vinho, livro com pitadas de romance platônico e secreto, misturando ainda mais a trama da história e ainda os artigos que tinha para entregar na segunda-feira, assim ganhava tempo para poder chegar mais tarde no jornal. O fim de semana tinha sido tranquilo, talvez por ser fim de mês, e a grana andar curta pra muitos. Era hora de inventar umas fofocas, cutucar a vida alheia e ser uma boa dona Fifi da hi society belorizontina. Algumas fotos de belas jovens enchem bem o espaço e são ótimas saídas para esses dias sem assunto. E o fácil era que Marcelo recebia as fotos e o release por e-mail, sem nenhum esforço. A noite caía e Marcelo assistia da sua varanda o claro ficar escuro da cidade. As luzes que se acendiam e se apagavam. No celular uma mensagem de um rolo. Marcelo lê, faz uma cara de preguiça ao olhar a bagunça que está sua casa. É um convite para ir ao Belas ver um filme e comer algumas coisa. Ele responde perguntando a que horas. Em pouco tempo chega uma mensagem dizendo que às 21:30. Marcelo olha o relógio e são quase 8. Escreve uma mensagem pedindo quarenta minutos para resolver umas coisas e dar a resposta. E depois disso, nenhuma mensagem mais. Marcelo se levanta e na metade do tempo já arrumou tudo o que era mais importante para deixar sua casa aprensentável ao delegado de polícia. Na outra metade do tempo toma um banho e enquanto coloca a roupa envia uma mensagem: E o convite, ainda tá de pé? Após longos 4 minutos, o celular de Marcelo apita com a seguinte mensagem: 21:30, no Belas. Beijo.

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